2. ENTREVISTA 18.7.12

FERNANDO LUGO - "NEM OS GENERAIS APOIARAM O IMPEACHMENT" 

Ex-presidente do Paraguai diz que ainda no desistiu de retomar o poder e aposta no recurso apresentado  Suprema Corte
 por Claudio Dantas Sequeira 

CONFIANA - Fernando Lugo afirma que isolamento do seu sucessor refora suas esperanas de voltar ao poder 

O ex-presidente Fernando Lugo ainda no desistiu de recuperar o poder no Paraguai. E suas esperanas ganham fora a cada dia de isolamento do atual governo de Federico Franco, suspenso do Mercosul e da Unasul. Seu isolamento  absoluto. Ele no pode visitar nenhum pas da regio nem participar de reunies com outros presidentes.  um peso, uma condenao muito forte. As classes polticas e empresariais comeam a se dar conta disso, afirma Lugo. A confiana na retomada do poder ficou evidente na entrevista que ele concedeu  ISTO por telefone, na quarta-feira 11. Nela, agradeceu penhoradamente o apoio do governo Dilma Rousseff pelas reaes rpidas e importantes ante o processo de impeachment. Falou dos argumentos de defesa que no teve chance de apresentar ao Congresso e disse que h deputados arrependidos. Para tentar anular o efeito do processo que o apeou do cargo, Lugo aposta no recurso de inconstitucionalidade apresentado  Suprema Corte e na deciso final da Organizao dos Estados Americanos (OEA). Nem os generais paraguaios apoiaram o impeachment, alerta.

"O bispo Rogelio Livieres  suspeito de desviar  fundos de Itaipu. Ele no tem credibilidade"

Enquanto acompanha o governo do lado de fora, Lugo se diz preocupado especialmente com a iniciativa dos Estados Unidos de reabrir as discusses sobre a instalao de uma base militar na fronteira com o Brasil. O tema tambm est na ordem do dia do Itamaraty e do Ministrio da Defesa brasileiro. Se o governo ilegtimo de Federico Franco aprovar isso, ser a entrega da soberania paraguaia, avalia o ex-presidente.

"Se Federico Franco aprovar a instalao de uma base militar dos EUA na fronteira com o Brasil, ser a entrega da soberania"

Isto - Um deputado paraguaio disse que uma delegao dos EUA esteve em Assuno, logo aps o impeachment, para discutir a instalao de uma base militar na fronteira. Como o sr. v isso? 

FERNANDO LUGO - Se o governo ilegtimo de Federico Franco aprovar isso, ser a entrega da soberania paraguaia. A instalao de uma base militar  resqucio de um projeto colonialista. Os paraguaios no aceitam ingerncia em sua soberania, seja dos EUA, seja do Brasil ou de qualquer outro pas.  

Isto - No  no mnimo estranho que Washington queira rediscutir isso num momento to sensvel? 

FERNANDO LUGO - Bem, no tenho informao oficial de que alguma delegao dos EUA visitou nosso pas. No descarto a informao porque sei que muitas dessas misses so feitas de maneira discreta, sigilosa. Desconfio que a ideia de instalar uma base americana aqui  iniciativa de alguns parlamentares. O deputado que falou isso, inclusive, foi criticado por muitos colegas seus. Certamente, 99% dos paraguaios rejeitam essa base. 

Isto - Alguns setores mais radicais atriburam o golpe aos EUA. O sr. acha que houve alguma influncia ou inspirao americana em sua sada?  

FERNANDO LUGO -  muito difcil afirmar isso. Mas h um ditado popular muito difundido aqui na regio de que os EUA sempre esto presentes, de alguma forma, em todos os golpes. Seja atuando diretamente, seja inspirando agentes polticos ligados  oligarquia tradicional. Creio que isso parte de alguns grupos apenas, pois vejo os EUA como um pas democrtico.  

Isto - Mas o governo Barack Obama reconheceu o de Franco. 

FERNANDO LUGO - Mas, depois do que vem acontecendo, eles adotaram uma postura de cautela na OEA, por exemplo. Particularmente, acho que o golpe foi pensado pela cpula dos partidos tradicionais atrelado aos interesses estrangeiros. As primeiras medidas de Franco beneficiam esses grupos, seja na liberao de sementes transgnicas, seja na suspenso do imposto sobre exportaes de soja e outras que beneficiam as multinacionais. 

Isto - O secretrio-geral da OEA, Miguel Insulza, fez um relatrio apoiando o impeachment. Isso no compromete a independncia do rgo? 

FERNANDO LUGO - A misso que eles enviaram aqui reuniu bastante informao. No creio que j exista um consenso, sobretudo agora que o isolamento poltico de Franco na regio est evidente. O que Insulza alegou  que no viu violncia nas ruas, protestos veementes e derramamento de sangue, como ocorre nos golpes militares. Esse no foi um golpe militar, mas constitucional, feito em laboratrio. Nem os generais paraguaios apoiaram o impeachment. Eu e meus colaboradores no promovemos a violncia. Queremos manifestaes pacficas, dentro da lei.  

Isto - E qual a sada? Acha que pode ser reempossado? 

FERNANDO LUGO - H dois caminhos, um jurdico e outro poltico. Entramos com um pedido de inconstitucionalidade feito  Suprema Corte. Hoje, os juzes se deram conta de que podem tambm virar alvo de um julgamento poltico por parte do Congresso. Vamos esperar. Enquanto isso, o governo Franco substitui muitos de nossos funcionrios e inaugura obras que foram iniciadas na nossa gesto. Acho timo, mas no d para apoiar um governo ilegtimo. 

Isto - No Brasil, ficou a impresso de que o Itamaraty demorou para reagir e, quando o fez, acabou precipitando o julgamento. Concorda? 

FERNANDO LUGO - Absolutamente, o Brasil e outros pases da regio tiveram trs reaes rpidas e importantes. Em primeiro lugar, conversamos com o presidente uruguaio, Pepe Mujica, que estava no Rio de Janeiro. Ele imediatamente se reuniu com Dilma e seus assessores e decidiram enviar a Assuno uma misso de 11 chanceleres. Foi uma atitude importante. Em segundo lugar, a presidenta Dilma assumiu as rdeas da reunio do Mercosul em Mendoza e decidiu suspender o Paraguai do bloco. Em terceiro lugar, o Brasil no reconheceu o governo Franco. No tenho do que reclamar. 

Isto - Surgiu na imprensa a informao de que o presidente venezuelano, Hugo Chvez, lhe ofereceu apoio militar para um contragolpe.  verdade? 

FERNANDO LUGO - No aconteceu nada disso, pelo menos at onde sei. Essa crise institucional no Paraguai , antes de tudo, um assunto interno, embora tenha repercusso internacional. Os embaixadores, chanceleres sabem disso. No aceitamos nem ingerncia nem sugesto. Muito menos uma ao militar.  

Isto - Como ex-bispo, os escndalos de mes reclamando a paternidade para seus filhos macularam profundamente sua imagem na Igreja. Hoje, muitos lderes se levantam para critic-lo. 

FERNANDO LUGO - Depende de onde vm as crticas. Se voc se refere ao bispo Rogelio Livieres, no me preocupo. Ele no tem trajetria pastoral, entrou pela janela, veio pelas mos de padrinhos polticos. Sua opinio  isolada e no conta com o apoio da cpula eclesistica no Paraguai. Alis, Livieres  suspeito de desviar fundos de Itaipu. Ele no tem credibilidade.  

Isto - Para tentar anular o impeachment, o sr. alega que no teve tempo para se defender. Acha, realmente, que faria alguma diferena, j que os parlamentares estavam to decididos a derrub-lo? 

FERNANDO LUGO - Foi um acordo poltico feito pelos partidos. Eles tinham a sentena escrita antes de concluir o processo. Havia uma agenda parlamentar, no ia mudar nada. Mas o direito de defesa  constitucional,  dos direitos humanos, ningum pode cerce-lo disso. O processo teve muitas falhas e argumentos ridculos.  

Isto - Em seu recurso judicial, o sr. lembra que outros ex-presidentes paraguaios tiveram tempo para se defender. 

FERNANDO LUGO - Exatamente. No incio da dcada de 1930, houve o julgamento poltico do presidente Jos P. Guiggiari, que teve trs meses para se defender. Em 2000, Gonzlez Macchi tambm foi submetido a um juzo poltico e teve trs semanas para se defender. Aqui no Paraguai, qualquer cidado comum tem tempo suficiente para responder em processos judiciais de toda espcie. Como um presidente da Repblica s pode ter duas horas?  

Isto - Ento, a defesa que o sr. estava preparando rejeitava toda a responsabilidade sobre as acusaes do Congresso? 

FERNANDO LUGO - Em nenhum dos casos, absolutamente. A carta de Ushuaia 2, que disseram ser uma violao  soberania paraguaia, no est em vigncia, pois no passou no Congresso. Tambm falaram da insegurana no pas. Desde quando um presidente  responsabilizado por medidas que devem ser compartilhadas com Estados e prefeituras? Tambm me acusaram de permitir o massacre de Curuguaty, em que morreram camponeses e policiais. Aquela ao foi promovida com ordem judicial, acompanhamento de policiais e promotores.  

Isto - Baixada a poeira, algum deputado o procurou para demonstrar arrependimento por ter votado pelo impeachment? 

FERNANDO LUGO - De fato, alguns dos que votaram me disseram que esto preocupados com o desenrolar dos fatos. No mediram as consequncias, no faziam ideia da reao internacional e achavam que se fizessem rpido iria funcionar. Agora, esto diante do isolamento, alguns esto arrependidos, sim. O isolamento de Franco  absoluto, ele no pode visitar nenhum pas da regio nem participar de reunies com outros presidentes.  um peso, uma condenao muito forte. As classes polticas e empresariais comeam a se dar conta disso. 

Isto - O sr. reconhece que falhou em sua gesto? O impeachment lhe traz algum aprendizado? 

FERNANDO LUGO - H, sim, muitas lies aprendidas. Sempre respeitei a Constituio, que fala da separao entre os poderes Executivo, Legislativo e Judicirio. Fui ingnuo em achar que no poderia haver ingerncia. Tambm aprendi que sem apoio significativo no Congresso, no h como governar. Especialmente porque a Constituio d muito poder aos parlamentares, que se sentem acima de todos.  

Isto - Embora o Brasil resista a reconhecer o governo Franco, muitos brasiguaios pressionam em sentido inverso, j que o novo presidente prometeu ajud-los.  uma questo complexa, no? 

FERNANDO LUGO - Esse  de fato um problema muito complexo. A comear pela nomenclatura. Os brasiguaios no existem perante o Estado paraguaio. Eles so simplesmente imigrantes brasileiros que se estabeleceram em territrio paraguaio. O acordo que fizemos com o ento presidente Lula em 2010 deu todas as garantias para que eles pudessem produzir e exportar sua produo  vontade. No tm muito do que reclamar. E acredito tambm que nem todos o faam. 

